A greve dos plásticos de Joinville

Entrevista realizada em abril de 2004. Para um contexto da situação, clique aqui: http://www.midiaindependente.org/pt/red/2004/04/279143.shtml

Te apresenta.

Meu nome é Maikon Jean Duarte, trabalhei na Cipla num período de seis meses, mais ou menos, começando em agosto de 2001 e permaneci até janeiro de 2002, mais especificamente dia 15 de janeiro.

Qual era a tua função lá?

Eu era auxiliar de produção.

O que faz um auxiliar de produção?

Eu trabalhava no Sopro B, que era a área de materiais de construção civil. Materiais de construção para residência, de plásticos como acento sanitário, caixa de descarga, esses equipamentos de utensílios para casa.

E quais foram os primeiros sintomas de crise na empresa?

Ao entrar na empresa eu já sabia de tudo. Já sabia que não havia possibilidade de…  Do atraso do FGTS, que há mais de dois anos não era depositado a todos os trabalhadores da empresa.  Existia o boato de que alguns do administrativo, de altos graus hierárquicos da empresa, tinham o Fundo de Garantia. Mas a massa, a grande parte dos trabalhadores, não tinha.

Quantos trabalhadores tinham nessa época?

Sempre teve em torno de mil trabalhadores.

Além do FGTS, o que mais pegava contra os trabalhadores?

Várias questões de atraso de salário. Três, quatro dias [de atraso]. No ano anterior tinham acontecido também coisas relacionadas ao 13º. Quando eu entrei começou o problema do 13º, que estava atrasado. Como o pessoal começou a pressionar, “oh, o 13º!”, eles resolveram pagar em parcelas. Aí quem pegou a primeira parcela não recebeu a segunda; alguns pegaram vale em compra no supermercado e não tinha fundos, a Cipla não tinha repassado o dinheiro. Começaram esses problemas. Em janeiro começou a atrasar os salários. Eu já estava com o salário há quatro dias atrasado, tinha pessoa que estava há sete. O pessoal começou a ficar preocupado. Chegou no dia 10, dia 11 de janeiro de 2002, começou aquele bochicho: “Ah, vai parar, vai parar”. A gente ia trabalhar nas máquinas, na prancheta das máquinas estava anotado: “Máquina parou dez minutos. Razão: falta de 13º, atraso de salário”. “Muitos estão com os salários em dias, mas, em solidariedade, paro a minha máquina tal horário”. “Retornei a tal horário”.  Começou uma coisa bem espontânea, esporádica, um ou outro. Mas chegou um dia que eu fui trabalhar, cheguei às 4h30 na empresa, bati o cartão, já estavam conversando comigo: “Pô, salário atrasado uns três, quatro dias, que merda, o que vamos fazer?” “Ah, vamos entrar atrasado!” Nessa de entrar atrasado o pessoal já veio assim: “Não liga as máquinas que nós paramos às duas da manhã e não voltamos ainda”.

Que horas isso?

Do primeiro turno, que é das dez às cinco. “Agora é com vocês, segurar das cinco à 1h30 e ficar na empresa e conversar com o pessoal do terceiro turno, da 1h30 às dez, para não ligar as máquinas também, continuar”. Isso que se deu. A gente chegou, não ligamos as máquinas e nos reunimos. O pessoal mais jovem, os operários mais jovens, se organizaram ali para discutir com o encarregado. O pessoal do administrativo não vinha para resolver o problema e a gente não ligou a máquina. Eles só vieram para resolver o problema depois das oito horas, quando começa a funcionar o administrativo. E aí o pessoal começou a ver: “Os caras que têm interesse que a empresa dê lucro não estão preocupados, então, porra, vamos continuar”. E a gente continuou. E nisso os caras vinham e falavam: “Ó, vocês vão continuar? Vocês sabem qual vai ser o resultado disso”. Mas, beleza, passamos o dia. E a gente foi comer, normal, lanchou na empresa, a refeição. E continuamos parados. E aquela coisa, aquela adrenalina, os caras novos como eu empolgados. “Meu, o que vai dar nisso? Mas vamos continuar”.

Até então sem uma reivindicação específica?

A gente falou, “voltamos a trabalhar se depositarem o salário e o 13º de quem tá atrasado”. Eles falaram “não, isso não é possível. Primeiro vocês voltam que a gente resolve isso”. Falamos: “Não é bem assim, primeiro vocês vão depositar pra depois a gente voltar”. Só que não tinha uma estruturação, sabe? Porque o sindicato estava distante, e aí não foi permitida a…

Que sindicato é?

Dos plásticos. Trabalhadores das empresas de plástico. Não foi permitida a entrada do representante do sindicato. Os representantes do sindicato no turno da manhã que estavam ali, eram muito imaturos, despreparados. A coisa estava tomando uma proporção muito grande, de ameaça deles, dos patrões, e nós nos defendendo de todas as maneiras. Uma hora a gente resolveu: “Vamos no administrativo cobrar do chefe”. Aí a gente formou uma comissão pra entrar lá. Só que quando a gente viu, a comissão eram todos os trabalhadores que estavam em greve e todos entraram no administrativo.

Quantos eram?

Ah, todo o setor da manhã da área industrial, eram muitas pessoas. Coisa de centenas de pessoas. Começamos a cobrar dos caras do administrativo um posicionamento. “Vocês vão depositar?” Aí chamaram a polícia. Só que ao mesmo tempo em que chamaram a polícia, o pessoal tinha celular e ligaram para a mídia ir lá e ver: “Ó, tem polícia aqui”. Foi tipo programas populares, tipo Tribuna do Povo, esses programas meio sensacionalistas de crônica policial. Os caras foram lá. E veio viatura, vieram umas três viaturas. Só que não levaram nada. A gente estava dentro da fábrica e ficou uma coisa meio se a polícia tocar em alguém o pessoal ia cair em cima ia ter o confronto ali mesmo. O pessoal tava muito puto. Aí a gente ficou na empresa. O turno acabou 1h30, eu sei que saí de lá às quatro horas da tarde. Tipo, fui pra casa e não conseguia dormir. Adrenalina. E fui trabalhar. Duas horas da manhã já, mas o turno começa às cinco no outro dia. Empolgação, né, vamos lá. Chegou na hora de bater o cartão, bati o cartão, tava dando negado. “Pô, que merda é essa?” E fui descobrir que eu estava despedido. Aí começou a reunir as pessoas, um grupo que estava com cartão desligado. Nisso somou muitas pessoas.

Quantas?

Do nosso turno devia ter – foi o que teve mais pessoas despedidas – umas quarenta pessoas, por aí.

E no total?

Foram oitenta.

Tu participou dessa comissão que foi até o administrativo para pressionar?

É que inicialmente era uma comissão, mas foram todos os trabalhadores. O que deu pra entrar, entrou, se não ficou ali na porta.

Depois que você foi demitido, o que aconteceu?

Eu entrei pra trabalhar, fui, disse: “Não, vou continuar a greve, tô demitido o caralho, vou ficar aí dentro dessa porra, tá ligado?” A gente entrou e ficamos lá dentro. Permanecemos muito tempo lá, até acabar o turno. Nisso já tinha os seguranças. Fora os seguranças da empresa, que são funcionários da própria empresa, duma empresa terceirizada.

Qual empresa é?

Não sei, eles não estavam uniformizados. Aí começou aquele problema: “Que história é essa?” Comecei a conversar com os seguranças. Tinha um sujeito mais velho, ele serviu o exército do Rio de Janeiro em 1975. Ele falava “ah, cara, estou acostumado com essas coisas. Eu ia com – esqueci o nome daquele instrumento que eles usam para reprimir – contra estudante no Rio de Janeiro, comigo vocês não colam”. O cara cheio de malandragem. Foi bem foda.

A segurança foi para expulsar os caras que estavam demitidos ou para barrar a greve?

Eles estavam lá para o que der e vier. O discurso era: “Nós estamos aqui para vocês não quebrarem as máquinas”. Mas se a gente quebrar onde a gente vai trabalhar? A gente precisa da máquina para produzir. Se a gente não produzir não vai ter como a gente dar continuidade a nossa vida aqui dentro. O discurso que havia na… Isso foi o que o carinha falou lá dentro para os seguranças. Eu nem conversei muito com os seguranças porque ia ficar nervoso.

Nessa hora era uma greve estabelecida, ou eram acontecimentos?

Foi uma greve, no primeiro dia, depois a gente desarticulou, porque o pessoal começou a ficar com medo. “Tenho vinte anos de casa, tô sem fundo de garantia, se eu for pra rua e agora? Vou ter que entrar na justiça, entrar na justiça é foda, as coisas demoram”, sabe? Bem complicado. Aí já foi desarticulando. De repente, no terceiro dia eu já não pude entrar. Os seguranças da empresa não me deixaram entrar. Eu fui pra casa, me chamaram no sindicato, assinei as papeladas e recebi a grana. Mas não do fundo de garantia. Até hoje, do tempo que trabalhei lá, não tenho meu nome na Caixa Econômica. Tinha um carinha que estava há um ano e meio, aí ele foi à Caixa Econômica: “Queria ver meu fundo de garantia, como tá depositado aí”. Era o primeiro emprego dele. Aí a caixa perguntou: “Mas tu tem certeza que tu trabalha?” Daí ele: “Claro, trabalho há um ano e meio, olha a minha carteira registrada aqui”. “É que tu não tem o nome aqui no fundo de garantia”. O cara tava há um ano e meio trabalhando na empresa e não tinha o nome no negócio.

Você sabe quanto tu tem de receber do fundo de garantia?

Não faço idéia, tenho de calcular tudo.

Que dia começou esse movimento que depois deu na greve?

Espontâneo começou dia 14 de janeiro de 2002 e ficou até dia 16.

E depois disso?

Depois disso, eu recebi… Fui correr atrás de várias coisas, de outro emprego. Aí, de repente, o Tonho, que trabalha até hoje na Cipla, me encontrou na rua e disse “Maikon, entrou um pessoal legal, vai lá se envolver, eles vão fazer piquete na frente da fábrica”. Eu fui na boa. Comecei a me aproximar das pessoas, eram caras envolvido com O Trabalho. Comecei a ver como estavam sendo estruturadas as coisas. Participar das assembléias, dos piquetes na frente da fábrica, das assembléias no próprio sindicato dos trabalhadores de empresas de plástico de Joinville. Essas pessoas vieram por fora, alguns trabalhadores foram pedir ajuda para organizar as coisas porque a situação estava ficando complicada lá. Porque depois que teve aquela greve a empresa começou uma atitude de vingança. “É, vocês ficaram lá, não foram demitidos, mas vão comer na nossa mão agora”. Eles atrasavam mais o salário, pagavam em várias parcelas, pagavam R$ 30 por semana. Auxiliar de produção, que o salário na época era R$ 1,47 a hora, recebia R$ 30 por semana. Salário dividido em várias vezes. Aí o pessoal começou a se organizar junto com esse pessoal de fora, do Trabalho. Esses caras foram interessantes, porque eles começaram a articular duma maneira… Começou a mobilizar todo o setor industrial da empresa, todo o setor industrial. Isso foi interessante. Começaram os piquetes. Fui em várias assembléias no sindicato. Depois a gente veio pra Florianópolis entregar uma carta pro Lula, falando da situação do campo fabril de plástico de Joinville. Foi levada a carta. Efeito não teve tanto. O único efeito foi que os setores da imprensa da capital conheceram o que estava acontecendo aqui em Joinville. Publicaram alguma coisa. Teve um respaldo maior dentro da grande mídia. Nesse dia já tava votado que ia ter a greve.

Como funcionavam as assembléias?

Eram convocados todos os trabalhadores do grupo HB. Que era Interfibras, Cipla, que era a maior empresa, e Brakofix. Nas assembléias tinham os representantes do sindicato e esse pessoal que começou a articular, o Carlos Castro, o Evandro. Eles já vinham com um pacote pronto e iam dizendo “vamos fazer a greve assim, assim”. “Mas e se a gente fizer a greve não vai demitido?”, o pessoal levantava as questões e o advogado do sindicato respondia. O advogado que sempre está com eles, também envolvido com a Cipla, Chico Lessa, sempre presta serviço pros movimentos sociais aqui de Joinville, tanto pro MST, como já colaborou com o movimento estudantil. Tem a maior experiência com o movimento sindical. Ele colocou os trâmites burocráticos, Constituição, e majoritariamente o pessoal votou favorável a greve, mais de 80%.

Era votação?

Era.

Tinha discussão, argumentações?

Tinha.

Votaram a greve…

A gente chegou no sindicato às três da manhã, ficamos articulando como fazer. Tava uma coisa meio despreparada. A empresa tem três portões, mas ninguém tinha discutido em qual portão a gente ia ficar. Daí a gente decidiu ficar nos três portões. Por um só entram os operários, no outro só os caminhões e no outro entra o setor administrativo. “Vamos ficar nos três!” Veio o pessoal de Floripa também, dois sindicatos de Floripa.

Sinergia?

É. E o de transporte.

Sintraturb.

É. Veio esse pessoal, eles deram uma mão. Chegou a vir o Júlio Turra, do diretório nacional da CUT, lá de São Bernardo do Campo. Eles vieram e colaboraram. Foi boa a colaboração porque precisava de pessoas com mais experiência para conversar com o pessoal, dizer que não precisava ter medo. A gente chegou às 4h45, já veio a policia: “Vocês não vão entrar na empresa”. “Não, a gente não vai entrar, a gente só vai fechar o portão”. Fechamos os portões, fizemos várias barricadas, em cada portão tinha uma barricada e em cada barricada tinha um delegado. Delegado de trabalhadores para levar as informações de um lado para o outro. E tinha uma circulação de pessoas que já tinha aderido; pessoal ficava lá na frente, foram montadas várias barracas. Essa greve durou sete dias.

Quantos trabalhadores estavam nessa greve?

Ah, cara, todo mundo do setor industrial. Poucas pessoas ficavam em casa. Mas, por exemplo, no primeiro dia tinha um pessoal que queria entrar, do setor administrativo, eles ficavam longe, no semáforo, uns trinta metros da empresa, observando. Eles sabiam que a gente não ia deixar entrar. Tinha um pessoal que ficava no shopping dando rolê. Tinha um pessoal que era do administrativo, pessoal mais jovem, tava achando legal porque ficavam jogando fliperama. E o pessoal lá…

Mas os trabalhadores estavam…

O setor industrial tava… Os trabalhadores do setor industrial, área de produção da empresa mesmo, de fato, tava parado e tava lá fora na greve. Não era só operário, auxiliar de produção e operador de maquina. Eram as pessoas que tinham funções como encarregado, líderes de seção.

Durante esses sete dias o que foi discutido lá dentro?

No início a empresa não queria negociar. Aí nessa já tava vindo o Serge Goulart, de Floripa, mais outras pessoas, o Carlos Castro, o Evandro. E ali na frente da empresa se discutia, a gente discutia: “Pô, o que a gente vai fazer?” Nos três primeiros dias não tinha discussão, negociação com a empresa. Depois começou a haver negociação e eles não queriam arredar o pé. Eles começaram a dizer: “A gente dá um terreno em tal lugar e, vendido o terreno, a gente deposita”. Colocavam isso em assembléia e não era aprovado, porque a gente já não tinha confiança na empresa. Porque, antes da minha entrada na empresa, e acontecer a primeira greve espontânea em janeiro, já tinha tido outras greves que eles falaram “não, a gente deposita depois”. Eles não depositavam. Por exemplo, seis ou sete anos atrás a empresa entrou em concordata duas vezes. Eles falavam: “Vocês precisam ajudar a gente, vamos lá, vamos trabalhar”. Tinha sujeito que ficou seis meses na empresa trabalhando de segunda a segunda para tirar a empresa da concordata. A empresa saiu da concordata e eles pararam de depositar o fundo de garantia. Não havia confiança nos patrões. O que aconteceu: Quando eles vieram com a proposta “a gente vende um terreno e deposita”, os trabalhadores disseram: “Não, a gente não quer isso, os trabalhadores não aprovaram”.

Os proprietários iam às assembléias?

Não.

Quem discutia com eles?

Uma comissão formada por representantes do sindicato, representantes da Câmara dos Vereadores, representantes dos trabalhadores e uma comissão formada que tinha trabalhadores e pessoas como o Carlos Castro, que vieram pra organizar.

Os operários também tinham sua representação?

Tinham.

E aí, como prosseguiram?

A partir do terceiro dia começou a desenvolver. Chegou num dado momento que eles pegaram e colocaram a proposta de passar a empresa pros trabalhadores administrarem. Essa discussão durou dois dias. Quando os patrões viram que a luta estava se encaminhando de tal maneira que a única maneira de eles se livrarem era liberar a empresa, colocar a empresa na mão dos trabalhadores, eles arredaram o pé.

E aí?

Aí eles passaram e os trabalhadores votaram essa proposta. Foi votada em assembléia a pauta de negociação. A partir dali formaram uma comissão de trabalhadores e não-trabalhadores para administrar a empresa.

Quem fazia parte dessa comissão?

Ah, de pessoas de fora tinha representantes da Câmara dos Vereadores; das pessoas que vieram organizar, representantes do sindicato, representantes dos trabalhadores, delegados de cada setor da empresa.

O que era preciso fazer para administrar a produção e distribuição? Essa pauta já estava rolando nessa assembléia?

Não. Primeiro fizeram uma comissão de transição, que durou noventa dias. Elegeram uma comissão na assembléia, na mesma assembléia que decidiu o fim da greve, porque os trabalhadores… Nós conquistamos a administração da empresa com nossa proposta.

Que faria essa comissão de transição?

Levantar a real situação da empresa, de dívidas, tanto com os órgãos públicos como água, empresas de prestações de serviços, com o governo federal, e também da dívida com os trabalhadores. E buscar caminhos para resolver esses problemas.

Tu acompanhou esse período?

Não, porque aí eu já estava desligado da empresa, já que fui demitido junto com outros oitenta trabalhadores em janeiro. Recebi várias ligações, o Carlos Castro me procurou pessoalmente várias vezes pra voltar – isso já era em final de outubro, novembro – e aí eu já tinha prestado vestibular, estava estudando, e o horário não iria conciliar com a faculdade. E eu já estava desenvolvendo alguns trabalhos relacionados à faculdade.

Então não chegou a ter participação na administração.

Não. Mas como o controle da empresa passou para os trabalhadores, me mantive próximo, procurei saber que estava acontecendo, não só acompanhando pela imprensa, mas conversando com as pessoas próximas e divulgando isso para os meus amigos de outras cidades e daqui de Joinville mesmo, para as pessoas que conheço do punk/hardcore. Divulgando também o material produzido, levando para outros lugares que não tem conhecimento do que aconteceu aqui em Joinville, da questão operária, da luta sindical.

Tu ainda tem uma ligação com a empresa, que é que eles tem de te pagar o FGTS, algumas coisas que tu não sabe ao certo. Com a empresa na mão dessa coordenação, dessa comissão, como seria resolvido esse problema?

Por exemplo, o meu primo que foi pra rua no mesmo dia que eu, em janeiro, entrou na Justiça. Está transcorrendo o processo e parece que ele vai receber agora. Eu pensei em entrar. Só que como eu me envolvi de tal maneira, eu criei certa esperança daquilo ali dar certo. Não queria entrar com uma ação na Justiça já que a administração está na mão dos trabalhadores e quem ia acabar pagando seriam os trabalhadores. Eu estava a tal ponto envolvido… Participei ativamente daquela luta. Eu estaria tirando uma coisa que é minha, eu estaria conquistando uma coisa que eu tenho direito, claro, eu tenho direito, mas eu não queria, ao mesmo tempo, fazer com que os próprios trabalhadores pagassem isso. Se fosse uma ação que tivesse como tirar do Anselmo Batschauer, que era o proprietário da empresa, tudo bem, mas eu não queria ir contra os trabalhadores que estão administrando a empresa. Quem vai pagar, penso eu que quem vai acabar pagando essa dívida que a empresa tem comigo são os trabalhadores, não a administração anterior.

Não seria repassada para a administração anterior?

Penso que não. Estou no acho, assim. Por exemplo, se eu for pegar esse dinheiro… Está acontecendo agora esse negócio com as pessoas que estão no processo, da venda das máquinas. Eles retirando as máquinas, a produção vai parar. E a produção parando não vai criar a possibilidade da continuidade dessa luta dos trabalhadores na Cipla. E não é a minha pretensão – desde que me envolvi com aquela questão, apesar do meu afastamento hoje –  prejudicar aquelas pessoas. Fosse prejudicar eu não me envolveria desde o começo. No transcorrer dos sete dias da greve, que deu nessa de passar a empresa para os trabalhadores, foram contratados seguranças de uma empresa de segurança chamada FT, uma grande empresa de segurança na cidade. Eles tinham o papel de defender o patrimônio da empresa, tinham a idéia de que os trabalhadores iam quebrar a empresa. E tinha muitos trabalhadores, pessoas daquela empresa de segurança, que estavam ali, mas que tinham familiares que trabalhavam na empresa. Estavam sem jeito. Os próprios policiais que estavam ali falavam: “Não queria estar aqui, meu primo está na mesma situação de vocês, ele tá lá do outro lado da rua, não está desse lado porque…” Eu falava: “É o teu papel, mas a gente faz oposição a vocês e se tiver algum problema aqui a gente não vai poder ficar parado”. A gente dialogava. Por exemplo, a gente recebia lanche na greve e dividia com os seguranças. Os caras tinham uma relação, mas tinha alguns que não, compravam as dores dos patrões e pronto. Daí acabou a greve e, numa dessa, a gente tava impedindo a entrada de um carro na empresa, do setor administrativo, e eu estava na frente do carro impedindo, veio um segurança da FT, me puxou “sai daqui, seu filha da puta”, não sei o quê. Eu fiquei muito transtornado e fui pra cima do cara. Várias mulheres me seguraram “calma, Maikon, se acalma”. Beleza, nisso acabou a greve, teve a assembléia que deliberou que a greve deveria ser parada, eu indo pra casa, um desses seguranças estava num bar. Tava eu e o Tonho, que até hoje trabalha na Cipla. Eu disse: “Ó Tonho, esse cara vai fazer alguma coisa comigo”. Eu disse “cara, não se mete que eu não quero prejudicar”. Aí ele veio pra cima de mim, me empurrou “agora tu vai ver”. Me empurrou, me deu um pontapé no peito, eu caí na rua. Daí eu levantei, pô, eu tenho epilepsia, comecei a ficar nervoso, ficar muito nervoso, o Tonho me segurou, disse “não, Maikon, relaxa”. Voltei na Cipla, conversei com os caras, pessoal falou: “Espera que a gente vai ligar pra empresa”. Parece que eles ligaram pra FT e disseram “o cara não vai fazer mais isso”. Evitei passar na frente do bar e encontrei esse cara várias vezes na rua, sempre naquelas ameaças “ah, vou te dar uns picocos”, sabe? Não sei até que ponto isso é uma piada ou é sério. Eu penso que é sério. É muito estranha a minha relação com esse cara. Como eu entrei na faculdade, comecei a participar do movimento estudantil. A gente estava organizando, por causa do aumento da mensalidade, várias manifestações dentro da universidade. E a universidade contratou uns seguranças. E eram os mesmos seguranças. E dentro da universidade, tipo… Ele tem um hábito, começou a perseguir outros alunos. Tinha um amigo que faz história comigo, o Luis Fernando, o Russo, que também é do hardcore, ele tava indo pra casa e o segurança tocou o carro em cima dele, jogou a luz, “abre o olho, hein, fora da universidade vou te pegar”. O cara compra as dores pra quem ele trabalha e faz o serviço sujo.

Sabe o nome dele?

Alexandre. Só sei Alexandre, trabalha na FT.

Não tem como fazer nenhuma ação contra esse cara?

Boletim de ocorrência.

Fez?

Não fiz. No momento não fiz. Imaturidade mesmo. Porque eu pensei: “Será que ele vai vir?” Esse ano ainda não tive a infelicidade de encontrar ele, mas o próximo momento que eu encontrá-lo e ocorrer qualquer ameaça, “vou te dar uns picocos”, “abre o olho, tô de olho em você”, qualquer coisinha, eu vou fazer um boletim de ocorrência pra não acontecer esse problema. Eu digo que se eu encontrar ele alcoolizado eu vou apanhar.

Teve mais algum caso de violência?

Teve um sujeito, seu Joelci, Joanecir, acho, ele estava na frente impedindo a entrada de um carro e o cara tocou o carro em cima, machucou a perna dele.

Na frente da empresa.

Isso, durante a greve.

Você me mostrou um recorte agora, era uma foto de uma paralisação e tinha um batalhão de choque…

Ah, o batalhão de choque sempre esteve presente em grande número mesmo. Até mesmo no final de semana. Só que tudo isso estava acontecendo num período eleitoral, para eleição do Estado, para governador. E como a gente está em Joinville e um candidato era de Joinville e o outro era de Florianópolis, a Polícia Militar, que é do Estado, não iria utilizar de força contra os trabalhadores, porque ia acabar prejudicando a imagem do atual governador que era candidato à reeleição [Luiz Henrique da Silveira, PMDB]. Tinha essa jogada política por trás. Mas teve uma hora estava num momento de provocação da empresa, “o pessoal do setor administrativo vai entrar”. Colocaram tudo dentro de um ônibus, a polícia jogou bomba, atingiu varias senhoras, várias mulheres trabalhadoras, atingiu vários homens, alguns homens foram agredidos com cassetetes. Teve uma série de imagens que foram captadas pelas TV locais que demonstram isso.

 

Dona Maria, da Vila Santa Rosa

Há quanto tempo a senhora mora aqui? Fale um pouco da sua história aqui na Vila. (Para saber mais da história de luta da comunidade da Vila Santa Rosa, clique aqui)

Faz dez anos que eu tô aqui, morando aqui. Moro com um neto de treze anos.

Como foi que a senhora veio morar aqui?

Eu me aposentei pela Comcap (Companhia Melhoramentos da Capital, responsável pela coleta de lixo e limpeza das ruas em Floripa), aí vim aqui e comprei essa casa. Mas eu não sabia que tava essa questão. E dali para cá foi sofrimento toda vida, toda vida.

Você comprou como, de quem?

Comprei da Noêmia, a vizinha, a gente trabalhava junto. Ela morava aqui, agora ela mora na frente, naquela casinha ali de dois andares.

Era dela o terreno antes de ela vender para você?

Era, como é que se diz… A posse, não é? Eu peguei só o recibo, porque a escritura ela não tinha. Aí vim morar aqui e chega todo ano de eleição é essa tristeza. Toda vida nós temos que sair, nós temos que sair, nós temos que sair. A gente fica assim: não dorme mais de noite, não come; a gente sai, já sai com medo. Se eu vejo um trator na rua eu já fico apavorada, parece que tá vindo pra cá.  A gente não tem mais sossego aqui nessa rua.

Como é o nome da rua?

Servidão Nossa Senhora de Lourdes.

E como era antes, quando a senhora veio morar? Qual é a diferença agora?

Quando eu vim pra cá não tinha esse muro aqui, nós fizemos. Todo mundo tá reformando a casa, tá arrumando as casas. A gente desanima porque todo dinheiro que a gente ganhou na vida da gente tá todo aqui. O suor da gente tá aqui. Se sai daqui, pra onde a gente vai? Vai ficar na rua?

Quantos netos moram com a senhora?

Mora um neto só. Antes moravam quatro netos, mas, agora, eles se mudaram. Só tá eu e meu neto.

A senhora estava me contando que…

Já me deu crise lá na reunião lá no Centro. Fui parar no hospital. Porque é muita conversa, muita briga, muita coisa, aí então a gente vai ficando nervosa. E eu tenho problema no coração, tenho problema de nervo, tenho um monte de problema. Então aquilo vai acumulando, vai acumulando. Nesse dia, até o Joaquim tava junto lá. Viu o dia que a polícia foi me pegar, o bombeiro. Desmaiei, tive uma crise. Que dia foi, Joaquim?

[Joaquim] Naquela votação na terça, que tu tava lá…

Que o pessoal quase ficou lá dormindo…

[Joaquim] Isso.

Não, mas não foi naquela… Ah, foi. Eu fui pro hospital e não deu mais. O médico me proibiu de…

Participar de manifestação.

É, aí eu não posso mais, porque me dá crise.

Você tava falando que a Comcap não limpa as ruas aqui da Vila…

Não limpa nada. Nós é que varremos tudo aqui, limpamos, ela não faz nada.

[Joaquim] E ofício a gente manda.

Manda, pede pra vir tirar os móveis, tábuas velhas que tem aí, a gente bota tudo na rua e fica, as crianças espalham tudo, fica tudo podre aí e ninguém faz nada.

Você mesma que limpa a rua, então.

A minha parte aqui eu limpo.

E o resto da rua também faz isso, os moradores e as moradoras?

Alguns fazem, como o guri estava fazendo ali. Alguns fazem, tem outros que já não fazem. Essa rua aqui ainda é mais ou menos limpa, mas as outras ruas aí… Deus que me livre.

Tem quantos anos o seu neto?

13 anos.

13 anos já? Então não tá mais na creche.

Não, ele faz karatê. Ele faz karatê aqui no Novo Horizonte, faz informática.

Novo Horizonte dá aulas de graça pra comunidade?

Ah, dá. Dá.

Nival, 55, gasista

Posso ficar olhando?, porque eu não entendo dessas coisas.

Pode, claro. Rapaz, nada mais é do que… porque esse gás não tem pressão. Ele não tem pressão.

Então os caras cobram essa grana toda pra tu vir aqui trocar uma peça de encaixe. É isso?

E alterar a furação do seu fogão, vou ajustar o seu fogão. Porque o seu fogão é simples. Se fosse outro fogão tinha que desmontar tudo, trocar as peças todinhas. Mas esse aqui não vou fazer…

Que tipo de fogão é mais complicado, os mais caros?

É, tem uns que a gente não põe nem a mão.

Por quê?

Porque é muito caro. Porque uma pá de fogão hoje está vindo com a tal da válvula de segurança. Se o cara pensasse bem… essa foi a pior coisa que inventaram na face da terra pros fogões.

Por quê?

Porque, dependendo do fogão… tem uns que custam 160, 140 reais, de 140 a 180 reais. Mas tem uns que já custam até R$ 540, e se ela der um pau… Porque simplesmente nada é do que um termômetro dentro do forno. Ele aquece, o mercúrio sobe por dentro do caninho de alimentação; quando chega na válvula ela imanta e puxa o diafragma, que é pra liberar o gás. E quando ele der um pau? Acabou. Aí cê perdeu seu forno, ou então você tem que chamar uma pessoa para passar para o sistema convencional. Uma porcaria o que fizeram.

Então privatizaram o sistema de gás e o pessoal se quebrou.

Foi. É muito caro! Tá muito difícil pra se trabalhar assim. Aí a Comgás enxugou tudo, botou todo mundo embora.

Quantos funcionários tem a companhia?

Agora… tinha seis mil funcionários na época. Aí privatizou. Hoje ela não deve ter 1500. Mas privatizou e aí o que aconteceu? Os próprios engenheiros da Comgás, alguns, montaram uma empresa de terceirização para tocar o serviço. Mas muitos deles já abandonaram.

E quem ficou no lugar?

Agora estão vindo algumas empresas de fora. Eu, como sou ex-funcionário, estou nessa empresa que eu trabalho, eu sou terceirizado também.

É terceirizado de uma empresa que presta serviço pra Comgás.

Pra Comgás. Essa empresa que eu estou agora é espanhola.

Como chama?

Transtusa. É espanhola.

E quanto a Transtusa de paga por mês? É salário fixo ou é por serviço?

É salário fixo. Mas de todas as empresas – eu já passei por três empresas só desde que privatizou – o melhor salário que eu tive é dessa.

Quanto, por mês?

Na faixa de 1200 reais.

E quanto a Comgás paga para o cara que faz o mesmo serviço que tu faz?

A Comgás paga três mil e pouco. Três paus e pouco.

Tu foi mandado embora ou quis sair?

Fui mandado embora. Os caras mais antigos? Mandaram tudo embora. Só que depois não teve mão de obra especializada. Alguns mais novos foram chamados de volta.

Problema pra companhia, processos?

Arrumou um problema terrível pra companhia, um problema sério. Ela teve que buscar alguns funcionários. Só que o gás expandiu muito. Teve que pegar gente pro interior. Aí tem várias categorias de gasista. Nós somos gasistas. Os gasistas industriais… alguns gasistas industriais chegam a tirar de 7 a 10 mil reais por mês.

Que tipo de função eles fazem?

Só mexem dentro das indústrias, alta pressão. Coisa bem mais séria. Mas tem uns que ganham bem.

Produção grande, não residencial.

Não residencial.

E o sindicato de vocês qual é? Como chama?

Aí o que aconteceu…

É um sindicato próprio de gasistas?

Tem um sindicato de gasistas, da Comgás, mas que é da própria diretoria da Comgás. E os das empresas que prestam serviços são os sindicatos de construção civil. Aí arrebentou com nós.

Divide.

Divide. Mas se você ver pela lógica, o que eles queriam era isso.

Dividir a categoria.

Os gasistas não estão em uma organização só.

Não. Eles dividiram porque, se tivesse todo mundo numa organização só, todo mundo ia ganhar a mesma coisa…

E esse sindicato que a Comgás controla é fechado com algum partido?

Não. Rapaz, não adianta você lutar contra eles, é a mesma coisa que dar murro em ponta de faca. Nós fomos fazer uma reunião com eles, para pegar 1% de cada hora de serviço.

E o que disseram para vocês?

Tocaram nós da reunião…

Mas tu que não é da Comgás tá nesse sindicato da Comgás ou tá no outro?

Não, tô no outro. Mas em determinadas coisas, quando tem que resolver, a gente corre também para ver se o outro sindicato dá uma força pra nós.

E eles dão?

Às vezes dá, às vezes não.

E eles argumentaram alguma coisa sobre essa história do 1% no atendimento? Ou nada?

Nada. Nem aceitar não aceita. É bastante complicado. Mas eu só acho muito errado os valores. Você tá pensando que eu concordo com isso? Concordo com isso não, é loucura. Mas isso é Brasil. Por isso que a Blitz Gás tá aí ó com um sorriso desse tamanho.

E o que tu acha que vai dar na eleição?

Olha, eu só te falo uma coisa: se o Serra ganhar, nós tamo mais enrolado ainda. Se o Serra ganhar, nós tamo perdido. Porque o projeto do Serra é acabar até com as residências. Não ter mais o gás de bujão. Ele tá com um projeto aí, terrível.

O que é, fazer gás…?

Todo mundo vai ter que usar esse gás.

Todo mundo vai ter que comprar um fogão novo, pagar tarifa?

Rapaz, olha, vai ser muito complicado pra nós, você vai ver muita coisa feia se o Serra ganhar.

Vai votar na Dilma?

Não sei ainda.

Qual seria outra alternativa?

Não tem outra alternativa! O Lula, com tudo, com tudo, o Lula ainda fez alguma coisa aí.

Tu é de algum partido, já foi de algum partido?

Não. Nunca fui de partido nenhum. Rapaz, mas eu… olha, quando o Lula foi candidato, tava pra ser candidato, eu tava dentro do apartamento de um empresário, lá no Perdizes, alto padrão. E tava uma turma reunida lá, falando, aí falou assim: “Deixa ele ganhar. Ele ganhando é mais fácil da gente derrubar, é mais fácil de nós tomar o poder”. É, mas não conseguiram não! Perderam feio. Não conseguiram não. O cara tá aí. E ele vai fazer essa Dilma ser candidata. Sem ele, ela não ganha não. Ele tem carisma, ele é impressionante. Tá aí, com o jeitão dele tá conquistando o mundo inteiro, todo mundo…

E não vai parar por aí.

Ele é muito ambicioso.

Mora onde, aqui em SP?

Em Osasco.

Atende quantas casas por dia?

Olha, depois daqui eu tenho… Olha a quantidade de serviço que tem ainda.

Isso é tudo que vai rolar ainda?

Hoje.

E quanto que já foi?

Deixa eu ver. Uma, duas, três, quatro, cinco… Já rolou 11. O mais fácil do meu serviço é trocar um registro de segurança. Ó o valor desse aqui. Colocar medidor, abrir o gás, ligar e converter. 225 paus.

Esse gás é melhor que o gás de botijão?

É mais seguro. É mais leve que o ar. Botijão é complicado. Esse gás você pode deixar do jeito que tá aqui, pode descer, voltar, o ventinho que entra por baixo da porta já tira. Essa é a vantagem do gás natural. Ele não é tóxico, não é poluente.

Se os governos conseguissem levar essa tecnologia pro povo, por um preço acessível, seria lindo, não?

Mas tem condição pra isso, rapaz! Esse país é auto-suficiente. Não precisa trazer nada de fora. O Brasil tem gás pra exportar lá pra fora, mandar pra onde quiser, pra qualquer parte do mundo!

E tu já sabe algo sobre esse projeto do Serra?

O que acontece: em termos de Brasil esse gás é caro, é muito caro! Dois reais e pouco um metro cúbico pra residência, não existe isso!

Tu acha que o Serra vai fazer um projeto desse tipo…

… já tá na mão dele. E o valor não é diferenciado nem pra quem mora no Cingapura. Todos os Cingapuras, todos os CDHU pagam a mesma coisa. Não vai longe, não. Você viu aquele predinho que tem ali na beira da marginal, que era na Ponte das Bandeiras, virou o Parque dos Gatos? Então, o que aconteceu, a Marta quando ganhou coisa aí botou o gás lá pra eles. Aí o que aconteceu, o pessoal vive de reciclagem e esse gás é caro. Esse gás é muito caro, em termos de Brasil. É caro demais, mas a Marta botou lá. O que aconteceu? Chegou um tempo agora e o povo não conseguiu agüentar mais pagar. Os vagabundos tomaram conta daquilo lá, de tudo, vai ver se tu consegue cortar o gás. Não consegue fazer nada. Aí ficou a favela do gato e ninguém corta gás.

Não dá pra culpar o pessoal em arranjar uma forma de se virar, não? Não tem dinheiro para pagar um negócio que é caro e não deveria ser…

Vão tomar prejuízo, porque o pessoal tá fazendo gato direto. O brasileiro é um bicho danado. Tinha dois caras que trabalhavam com nós aqui. Um era honesto, o outro desonesto. Um era honesto demais, o Zé Maria. O Zé Maria era muito honesto e o Gaúcho, um mercenário danado. O negócio dele era dinheiro.

O que eles faziam?

Faziam bico…

Pra liberar o gás pra galera.

Aham.

É tudo muito caro, esse é o problema, e o pessoal vai arranjar um jeito de se virar.